via Desafio Literário | BALADA PERFUMADA

Cabe aqui alguma reflexão sobre a minha participação no Desafio Literário promovido por Maria Vitória, do blog aestranhamente.com. Considero vital para a continuidade da poesia, a interação entre criadores em meio virtual. Deparo-me com a existência de inúmeros poetas dos mais diversos matizes aqui no wordpress – desde aqueles que chamo poetas diferenciais, cultores de uma poesia de invenção ou, ao menos, de busca de uma voz própria ou mais apurada, até aqueles que chamo poetas de convenção, praticantes de uma poesia mais singela e despretensiosa que, embora a mim pessoalmente não me atraia, tem o seu valor, lugar e função no mundo da poesia (sem contar que gratas surpresas podem advir desses estros).

Desafios como esse propõem a aproximação de textos que, do contrário, jamais seriam vistos juntos em qualquer outro lugar. Parabéns a Maria Vitória pela iniciativa. Com isso, tomamos consciência da diversidade, e é sempre conveniente lembrarmos que não estamos sós em poesia neste crepúsculo da era cristã. Força é atentarmos para as múltiplas vozes deste e de outros momentos históricos, com a humildade de reconhecer que não nos cabe a ambição de percorrer todos os caminhos que as palavras vivas já percorreram, apenas estar abertos para a possibilidade presente.

Os votos que posso fazer, por fim, são pra que todas e todos os poetas perseverem no cultivo de sua arte sem se acomodar nas mesmas fórmulas e espontaneísmos estéreis; ao invés disso, busquem entender que assim como na vida dedicamo-nos mais ou menos a um auto-aperfeiçoamento no sentido do refinamento das percepções sobre o ser, na arte também devemos tender a uma elevação da forma e do conteúdo, por meio de estudo, pesquisa e aplicação. Vivemos uma longa época de degenerescência em todos os âmbitos do espírito humano e não nos compete simplesmente aceitar isso. Mesmo que a nada leve, mesmo que nos contentemos com o singelo, todas e todos temos a capacidade de ao menos apontar para algo melhor, ainda mais em vista de tudo de belo e primoroso que já foi realizado pela nossa espécie (o que torna o desafio ainda mais intrigante).

Viva o Desafio Literário! – a poesia ainda tem muito a oferecer como arte!

BALADA PERFUMADA

Perfumes disputam, agridem
o olfato geral
Parceiros são apenas
em burlar o fedor
mau cheiro da vida
das sobras da vida
mau cheiro do medo
o olor da preguiça

Hoje é sorver dos perfumes
o seu encanto engano
aceitar que o agrado
não suprime o que torna à tona:
o estrago desgaste
acúmulo rejeito
cheiro exsudação

Por ora os perfumes
continuam empestando
o salão, o terraço
mascarando gases
roupas e peles encardidas
narinas e galas opressas

Cultivemos a sua
delícia e agressão
hão de após se exalar
o futum, a catinga, o bodum
rescendendo de pregas
poros orifícios
– um aviso de morte –
hão de ascender
de valas, fossas
bueiros, monturos
– uma crueza fragrante
um assédio olente

E virão novamente os perfumes
tornar-nos mais suportáveis
eivar o espaço ao redor
e novamente o tosco espanto
numa esquina ou ponte
sob fachadas escusas
o assalto cheiroso
o asco num flagra

Perfumemos a vida embora
oferenda a circunstantes
disfarcemos a morte embora
em presenças mortais
No fim de tudo
em meio a flores e frascos vazios
haverá o fedor
fedor das carnes
hálito das fomes
fedor de aterros
o lixo, as fezes
o esgoto aberto em praias
o fedor, o fedor, livre o fedor
e os demais cheiros
francamente

TMM
2017-2018

 

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